... ou de como por um pequeno buraco olhamos por dentro de alguém. E vemos tudo ao mesmo tempo que nos esquecemos que o tudo que vimos é apenas aquilo que queremos mesmo ver. A parte torne-se o todo.
Ficar de fora. Minimamente invasivos. Buracos pequenos são, como relações pequenas, rápidos de fazer. E eficazes. Olhar para dentro do outro por um pequeno orifico, mexer em alguém sem entrar nele, e ver tudo? É bom. E fácil.
Apaixonei-me pela laparoscopia. Cirurgica e da vida.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
domingo, 26 de julho de 2009
Zen
Sempre foi uma união improvável, esta nossa. Começou há coisa de oito anos. A "retornada" de Africa, revoltada, amante de hip hop e de calor, espiritual mas completamente anti-católica. O "beto" do Liceu Francês, o mais católico de todos os beatos e o mais "cromo" de todos os colegas. Da união improvável foi nascendo a amizade baseada em, revejo-nos agora, nada. Nada nos unia, nada em comum. Não gostamos da mesma música, não temos histórias de vida semelhantes, não pensamos da mesma forma em quase nada, não tinhamos amigos comuns, não tinhamos a mesma fé.
Ao longo dos anos fomo-nos gostando, umas vezes mais perto outras muito distantes. Fomos juntando amigos. Quase sempre a conversa acabava em discussão e a discussão, em conversa. Pegávamo-nos, forte e feio. Tu a tentares mostrar-me que havia mais no mundo para além da minha incrivel capacidade de só ver o meu próprio umbigo, eu a mostrar-te que tinhas de ver mais o teu umbigo. Tentei corromper-te para este meu mundo, Pedro. Tantas vezes. Tantas vezes te quis ensinar a ser mais mau, mais ranhoso e tu, sempre na tua, a tentares manter-te bom. Ontem alguém me disse, com pena, que tu nos deste muito mais a nós, que nós a ti. E é verdade. E não penses que digo isto só porque fica bem. É esta a verdade. E é, em relação a ti, e juntamente com as minhas tentativas de te corromper, a única coisa de que me arrependo. Devia ter sabido que não eras de cá.
Devia ter-te pedido para dares um beijinho meu ao Kiko e ao Marco mas sei que vais fazê-lo. Eu também não tenho pena que tenhas ido, não vou chorar e quero acreditar, mais que nunca, que estás melhor. Escolheste-nos e nós temos de te deixar seguir o teu caminho, sem lágrimas. Continua a mostrar-nos a tua luz e zela por nós, anjo que agora és.
Eu vou sentir a tua falta todos os dias.
domingo, 19 de julho de 2009
Caminhos
Uma pessoa vive uma vida com outras. Crescem juntas, dançam juntas, dormem juntas, riem e choram juntas. Uma vida pequena, mas uma vida. Comem as mesmas comidas, ouvem as mesmas músicas, falam do mesmo. Odeiam o mesmo, lutam contra o mesmo.
E no final, no final, nem se entendem mais.
No final, somos nós mesmos, no caminho que escolhemos seguir. E seguindo as convicções que nos faziam ser igual e parte dos outros, somos já diferentes deles. E transformamo-nos naquilo que o outro abomina. E é reciproco. É estranho ser pessoa.
E estamos juntos, mas já não dançamos juntos, já não nos rimos do mesmo e nem pensar mostrar se choramos. Comemos do mesmo e ouvimos as mesmas músicas mas falamos de coisas diferentes em linguas diferentes. Gostamo-nos como duas pessoas que se conheceram se gostam mas nem nos falamos.
Estranho ser pessoa.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Voltei
Voltei. Voltei do não ter de acordar cedo, das 24 sobre 24 horas passadas só e somente com o meu bicho favorito, do andar por andar, do ouvir falar outras linguas. Voltámos morenos, cheios de músculos nas pernas e revigorados. Voltámos felizes. Com o cérebro cheio de cultura, a alma cheia de arte e a barriga cheia de gelados.
Já tirei o verniz vermelho das unhas das mãos. As guidelines não recomendam. É um previlégio de férias que assinala o inicio e o fim do "bem-bom".
Após dois dias de desinfecção cirúrgica das mãos e antebraços já só tenho bronze até ao cotovelo. É o estilo inverso ao "bronze de camionista".
E graças ao calor abrasador dentro da bata sob as luzes do bloco, do contacto com o corpo dos meninos deitados no colchão aquecido e do stress (principalmente do stress) já transpirei tanto que perdi toda a epiderme escura que tanto me custou a conseguir.
Mas operei a minha primeira hérnia.
E trocava, todas as vezes que fossem precisas, todos os bronzes do mundo, todo o verniz vermelho e tantas, tantas outras coisas por esta sensação.
domingo, 7 de junho de 2009
Eu vou...
Vou pra Itália, tralalá... Vou da mochila, tralalá... Dormir em pardieiros, tralalá... E apanhar piolhos... estrangeiros, tralalá!
Ando capaz de abraçar o mundo e nem a celulite, nem a barriga banhenta (essas coisas tipicas de pré-verão) me conseguem desanimar.
Meus queridos, fui. O plano da viagem é mais ou menos o que mostra em baixo, mas passamos em Isola d'Elba para um niquito de praia. Depois logo vos direi se o Canal Grande, a Piazza San Marco, as maravilhosas lojas de Milano e os maluquinhos do Vaticano ainda lá continuam.
Ando capaz de abraçar o mundo e nem a celulite, nem a barriga banhenta (essas coisas tipicas de pré-verão) me conseguem desanimar.
Meus queridos, fui. O plano da viagem é mais ou menos o que mostra em baixo, mas passamos em Isola d'Elba para um niquito de praia. Depois logo vos direi se o Canal Grande, a Piazza San Marco, as maravilhosas lojas de Milano e os maluquinhos do Vaticano ainda lá continuam.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Pequenos milagres
Nós, que trabalhamos com crianças, de vez em quando vemos sindromes e doenças complicadas. Vemos e sabemos as alterações orgânicas que os mesmos trazem, adivinhamos as necessidades de cada um, providenciamos ventiladores, alimentação parentérica, abrimos os meninos para tentar corrigir os defeitos, protegemo-los com antibióticos.
Estamos habituados a que vidas pequenas nos mudem a vida. Mesmo as vidas diferentes, as vidas daquelas crianças que até custa olhar. A única coisa que não adivinhamos é o amor que rodeia estas crianças diferentes. Às vezes esquecemo-nos do pequeno grande milagre que é a vida.
Hoje lembrei. Ele ajudou.
I'll be sad later.
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